FIAC Paris Online Viewing Room: Glauco Rodrigues

4 - 7 Março 2021

A Bergamin & Gomide participa da FIAC Online Viewing Rooms, apresentando obras de Glauco Rodrigues (1929-2004). A feira acontece na plataforma online entre os dias 04 a 07 de março de 2021.

 

Glauco Rodrigues nasceu em Bagé, no Rio Grande do Sul, e começou como autodidata, produzindo obras marcadas pela abstração. Em 1960, participou do IX Salão Nacional de Arte Moderna e obteve um prêmio que lhe possibilitou viajar para a Europa. Participou da II Bienal de Paris e, por convite da embaixada brasileira, morou em Roma entre os anos de 1962 e 1965, quando teve oportunidade de participar da XXXII Bienal de Veneza.

 

Glauco realizou um percurso semelhante ao dos artistas modernistas, como Tarsila do Amaral, mas foi através da Arte Pop, que iniciou sua volta à figura, ao mesmo tempo em que, antropofagicamente, contou a sua história visual brasileira. Temas atribuídos à identidade nacional - a natureza tropical, o Cristo Redentor, o carnaval, as mulheres de biquíni, os indígenas, os negros, São Sebastião, o futebol, as lendas - dividem espaço com cenas retiradas da história do Brasil.

 

“me proponho a fazer uma PINTURA BRASILEIRISTA E ANTROPÓFAGA (e com emoção)” - manifesto escrito por Glauco Rodrigues em 1981

 

Na pintura Pau-Brasil (1974), Glauco Rodrigues representa um indígena que se aproxima da etnia Kayapó. O indígena usa o botoque, um ornamento circular, geralmente de madeira, introduzido no lábio inferior. Um dos líderes mais importantes da etnia, o Cacique Raoni Metuktire, é reconhecido internacionalmente por sua atuação como ativista pelos direitos dos povos nativos e pela preservação da Amazônia.

 

O ano de 1974, em que foi produzida a pintura, marcou a história indígena brasileira. Com a abertura do tráfego da Rodovia Cuiabá-Santarém, as populações indígenas isoladas entraram em contato com o homem branco, e como consequência, foram quase dizimadas por infecções. Ao representar o índio Kayapó atrás de um prato com um cacho de bananas, Glauco nos apresenta uma ironia carregada de críticas à Ditadura Militar, que construiu a Rodovia imbuída do lema "Integrar para não Entregar!".

 

A obra Eis Aí (1971) A frase “Eis aí o que quiseram tanto os nossos avós para nós", escrita como fala do indígena representado na pintura, pode ser lida em português e em tupi-guarani. Na obra, Glauco novamente propõe a crítica através da ironia, afinal, a situação dos povos nativos no Brasil estava, e está, longe de ser o que as populações indígenas "tanto quiseram"...

 

Em 1971, mesmo ano de "Eis aí", Glauco produziu uma série de 26 obras com a temática da Primeira Missa no Brasil - espécie de releitura da famosa pintura de Victor Meirelles datada de 1861 - que como um todo critica a colonização européia no Brasil, e sobretudo, a catequização dos povos originários.

 

A relevância e atemporalidade da obra de Glauco Rodrigues, em que desfilam temas e mitos da vida brasileira, é narrada por Frederico Morais como uma obra em que é "Tudo canibalizado, deglutido e em seguida expelido na forma de uma explosão colorida, de um delírio visual", e torna-se ainda mais pertinente no atual contexto político-social brasileiro.

 

Em seu texto crítico, Lilia Moritz Schwarcz reitera: "nesses tempos tão distópicos em que vivemos, quando a realidade parece exagerada e surreal (mas infelizmente não é), quando a política vira espetáculo fácil de autoritarismo, onde o verde e amarelo foram sequestrados de uma parte importante da população, a ironia sutil de Glauco talvez esteja finalmente em casa e diga respeito aos tempos do agora. Esse tempo em compasso de espera e que se apresenta na forma de um presente sem futuro."

 

E finaliza: "O verde e amarelo somos nós! Tudo em sua obra é arte antropofágica, no sentido dado pelos povos ameríndios que fazem da comida um ritual de troca e deglutição, sem geografia certa ou tempo delimitado. Tudo deve ser digerido e vomitado, numa celebração da cultura brasileira que devora aos “outros”, mas também a si própria e a “nós” mesmos. Isso porque, “acontece que somos canibais” – verdes e amarelos, e tropicais."