José Resende Brasil , 1945

Em resposta à pergunta o que te instiga, o que te move?, enuncia sem hesitar: a vida.

Com um percurso artístico iniciado há quase seis décadas, José Resende buscou através de suas esculturas intervir no espaço público urbano de forma a confrontar a tendência dessensibilizante que reside na repetição dos dias.

Seja a partir de obras que preenchem o espaço utilizando materiais como placas de cobre, metal, aço; ou contêineres e vagões, suspensos e empilhados; ou blocos de concreto orquestrados em uma edificação da alternância; seja a partir de obras que o artista chamou de “desenhos tridimensionais”, linhas de tensão formando ângulos agudos entre fios de couro, barras de ferro, pedregulhos e espaços vazios – o trabalho de José Resende tem a intenção de convocar o outro e contribui decisivamente para o reconhecimento e amadurecimento da expressão artística brasileira.

 

O artista paulistano José Resende (1945), em resposta à pergunta o que te instiga, o que te move?[1], enuncia sem hesitar: a vida. Com um percurso artístico iniciado há quase seis décadas, Resende progressivamente buscou, através de suas esculturas, uma intervenção no espaço público urbano que pudesse agir no cotidiano dos passantes de modo a confrontar a tendência dessensibilizante que reside na repetição dos dias. Dessa forma, obras como o Passante (1996) do Largo da Carioca e a Vênus (1991) da Rua do Rosário tornaram-se personagens da vida do centro do Rio de Janeiro, interagindo com os cariocas diariamente, seja no ir e vir da rotina de trabalho, seja dançando junto, movendo-se com os trancos dos corpos dos foliões nos ensaios e saídas de blocos carnavalescos. Para Resende, todas essas ativações e impactos recebidos e causados pelas obras a partir do lugar em que elas estão situadas são os aspectos que dão sentido à sua presença no espaço comum, que completam, complementam e adicionam camadas de significação ao seu trabalho.

 

Seja através dessas obras que preenchem o espaço através de placas de cobre, metal, aço, através de contêineres e vagões suspensos, empilhados ou blocos de concreto orquestrados em uma edificação da alternância; seja através do que o artista chamou de “desenhos tridimensionais”, linhas de tensão formando ângulos agudos entre fios de couro, barras de ferro, pedregulhos e espaços vazios – o trabalho de José Resende convoca o Outro em uma experiência corporal que começa por um estranhamento mental, dada a dificuldade de colar à maioria de suas obras atribuições do comum, de um repertório de imagens e construções pré-estabelecidas. O seu interesse vem do que na obra é desconhecido, a convocatória vem do que o trabalho tem a ensinar sobre a imaginação do impossível, sobre a manipulação das coisas duras, sobre o fascínio da tensão. Nesse sentido, há momentos em que cruza com o chamamento corporal dos neoconcretos como Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas as propostas logo se distanciam quando estes não abdicam do comum como recurso e como convite à experiência corpórea que conta sobretudo com os sentidos e com o movimento que o Outro agrega à obra.

 

De importância incontornável no cenário contemporâneo brasileiro, o comprometimento de José Resende para com a arte sempre foi exercido não só através da sua produção, mas também do seu engajamento no debate por meio da participação e fundação de jornais, revistas como a Malasartes (1975-76), A Parte do Fogo (1980) e o Centro de Experimentação Artística Escola Brasil (1970-74), tendo iniciando sua atividade profissional na Rex Gallery & Sons, que existiu entre junho de 1966 a maio de 1967. Podendo ser associado a diversas correntes artísticas relevantes do século XX, como a arte minimalista, conceitual e povera, devido à variedade de dimensões e formas das quais lançou mão e ao uso de materiais de naturezas distintas, como a parafina e o concreto, como o vidro e o aço, o que mais chama a atenção no trabalho de José Resende é a sua singularidade que nunca permitirá restringi-lo ao programa de um movimento específico. Nesse ponto, Resende reivindica à sua obra aquilo que sua grande amiga e artista Mira Schendel também reivindicou: um poder de autonomia e síntese, um descompromisso com a comunicabilidade imediata, já que ambos exercitam, por meios distintos, a linguagem artística como potência condensada.

 



[1] Entrevista com o artista plástico José Resende realizada em 2013 para o Oncotô, programa de Jorge Mautner na TV Brasil.